XC - Cross Country, Cadê a próxima térmica?

Atualizado: Abr 21

Desenvolvendo a leitura do relevo para melhorar a busca pela continuidade do voo.


Às vezes se espera a temporada de voo e, ao seu final, ela parece não ter sido tão boa quanto se esperava. Mas, e a sua técnica para saber para onde ir após a primeira base, você a tem desenvolvido?

Muito se fala e se preocupa em aprender sobre nuvens e muita gente dá dicas para se avaliar melhor a navegação meteorológica com base no que o céu nos diz sobre a atividade térmica mas, em vários dias de voo podemos ter térmicas secas onde não teremos nuvens para ler. E ai? Bem, neste artigo, vou tentar ajudar você a desenvolver a sua navegação através da leitura do relevo, que sempre estará lá para ser lido.

Quando fazemos leitura de solo, precisamos saber que estamos buscando voar sobre o máximo possível de potenciais fontes produtoras de correntes ascendentes, as maravilhosas e tão desejadas térmicas. Como sabemos que para termos térmicas precisamos, basicamente, de ar aquecido em movimento ascendente, vamos à origem de tudo.

Para termos ar aquecido precisamos, primeiramente, de coletores de calor, áreas em solo com características favoráveis a receber, reter e refletir calor. Observem que, destacadamente, precisamos que estas áreas tenham características favoráveis para reter ar.

Primeiramente, dê preferência a áreas que tenham maior facilidade de aquecimento superficial e retenção de calor, tendo o cuidado de observar que, nem sempre, o que aquece mais rápido ou é mais maciço é melhor. Na verdade, se a superfície for muito maciça o aquecimento será rápido, mas somente superficial e sem capacidade de retenção do calor. Desta forma, este solo passará por mudanças de temperaturas muito rápidas oscilando de quente para frio a qualquer sombreamento. O ideal são superfícies que se aqueçam com relativa facilidade, que também mantenham o calor retido por algum tempo e consigam refletir este calor para o ar próximo, desta forma cumprindo a parte do processo que é a formação das convecções.

Muita atenção com o tamanho das áreas avaliadas, pois áreas muito pequenas não conseguem acumular calor e ar suficientes para processos convectivos consideráveis para nosso vôo. Áreas muito grandes, por sua vez, perdem a definição de formato e se tornam difíceis de mapear com exatidão. Imagine, então, áreas com tamanhos de 0,5 a 1,5 campo de futebol como áreas ideais.


Bom, observe que o tempo todo estamos, na verdade, buscando espécies de ninhos nos quais o ar possa ser retido e chocado mas, assim como num ninho de verdade, se não houverem ovos, não importa o quanto o ninho seja bom. Não nascerá nada. Então, verifique também se a área desejada tem capacidade de reter o ar para que este seja aquecido e se cumpra a parte final do processo de formação das convecções.

Vale lembrar que uma convecção não é, ainda, uma térmica útil. Uma convecção é apenas o ar aquecido em forma de uma parcela isolada termicamente do ar á sua volta. Temos apenas uma bolha ou bolsão de ar quente ali preso ao solo. Para se transformar em uma térmica útil, precisamos que esta parcela de ar se descole do chão ou forme um canal ascendente e suba. É aqui que começamos a avaliar os famosos gatilhos. Mecanismos estáticos ou dinâmicos, inertes ou animados que podem provocar a perturbação necessária para que a bolsa de ar quente se desprenda do solo, ou vaze, abrindo o canal mágico para as nuvens: a térmica.


Um gatilho pode ser uma árvore solitária no meio do coletor, uma corrida de um bezerro desgarrado, um trator cortando o pasto, uma rajada de vento, o parapente de um outro piloto... qualquer coisa que perturbe a bolsa de ar quente. Existem gatilhos que são ativos, provocam isoladamente a perturbação da bolsa, como um bezerro, um parapente ou um trator e gatilhos que são passivos, dependem de outra variável para provocarem a perturbação, como uma árvore, um poste, um morrote ou um casebre. Estes gatilhos passivos, normalmente, funcionam em conjunto com o vento. Uma razão simples para se entender a causa da maior quantidade de térmicas em dias de vento forte. Só que, infelizmente, como as térmicas se desprendem com maior facilidade, acabam se desprendendo com pouca energia e gerando muitas térmicas falhadas e/ou fracas. Nestes casos, você deve dar preferência a coletores que não contem com gatilhos passivos em excesso e que tenham maior capacidade de reter ar. Em algumas situações, mesmo sem um gatilho, a bolsa de ar se desprende do solo por causa de seu tamanho e/ou energia acumulada.

Outro fator muito importante a se observar é que, em casos de terrenos com inclinações, as bolsas de ar quente tendem sempre a subir o relevo. Se em sentido a favor do vento, voando com vento de cauda, o terreno for um declive, as bolsas tenderão a se desprender no início deste. Se for um aclive, estas tenderão a se desprender no final deste, o que, inevitavelmente, provoca uma zona negativa entre o início do declive e final do aclive.


Vale lembrar também que as bolsas de ar quente se deslocam por terrenos regulares, normalmente seguindo o vento ou subindo o relevo, até encontrarem irregularidades, naturais ou não, que funcionem como alavancas. Assim sendo, fique também atento a cercas, fileiras de árvores, erosões, rios e outros obstáculos a favor do vento que possam interromper o deslocamento da bolsa em solo provocando seu desprendimento.


Mais um ponto importante é que as térmicas normalmente se desprendem nas extremidades em vinco ou em pequenas elevações no relevo posicionados a favor do vento. Isto pode auxiliar o piloto para que calcule a melhor posição de entrada no fluxo ascendente quando passando pelo coletor.


Resumindo, navegar observando o solo não é tão complicado quanto pode parecer. O que acontece é que existem alguns pequenos detalhes que fazem muita diferença entre acertar uma fonte promissora e pousar numa bela clareira inativa. Via de regra, busque voar sobre os pontos mais positivos e evite os negativos, memorizando o que torna uma região do relevo mais positiva e outra negativa.

Os formatos de relevos influenciam em muito as técnicas usadas para leitura do relevo, uma vez que interferem totalmente na dinâmica das térmicas. Os relevos em que buscamos fazer voos de distância tendem a ser menos acidentados e mais planos, mas esse mais plano varia de região para região. Para facilitar, vou dividir os relevos apenas em Montanhas (encontradas principalemente no Sul do Brasil, Espírito Santo e Rio e Janeiro), Acidentado e Plano (que as vezes chamamos de flat - plano em inglês)


Voar nas montanhas não é para qualquer um. Além das complexidades técnicas de leitura do relevo, existe um risco em tempo integral no voo que mina a capacidade de concentração do piloto, baixando sua eficácia de leitura e navegação: a restrição de áreas de pouso e as áreas de ocorrência de rotor. Devido a isso, não vou entrar nesse assunto aqui.


Os relevos acidentados são uma constante em diversos lugares do Brasil e com enorme potencial para voos de distância, muitas vezes inexplorados por limitação técnica que gera receio e trava a exploração. A leitura de relevo é mais previsível e consistente devido à mecânica resultante do encontro do ar com o relevo. Neste tipo de relevo existem grandes e claras áreas de retenção de ar, que facilita a formação de convecções (que é o ovo da térmica), e também retenção de umidade, o que tende a sempre gerar térmicas úmidas e nossas lindas nuvens. Outra vantagem é que os bolsões térmicos (convecções) tendem a crescer mais antes de virarem térmicas úteis (fluxo de ar ascendente). A única complexidade técnica nessa leitura é estar sempre atento à incidência do sol no solo e a direção do vento para calcular bem o ponto de ruptura ou desprendimento e prever o escoamento da térmica. Eu adoro... é muito previsível, cíclico e consistente. Uma dica, evite transitar entre uma térmica e a próxima sobre as depressões dos terrenos, sempre trafegue sobre os picos ou serras. Outra dica, imagine um teto de cabeça para baixo com goteiras e imagine-se vendo as goteiras escorrendo para gotejarem. Um alerta é que, em dias de vento forte, este tipo de relevo muda completamente o seu comportamento. Ainda é um relevo favorável, mas os ciclos ficam bagunçados devido à alta incidência de rotores no relevo. Imagine os ninhos bagunçados e se despedaçando. E, para completar, não é o melhor lugar do mundo para se errar uma tentativa e pousar (sempre pouse no topo dos morros SEMPRE).


Muitos pilotos, talvez a maioria, adoram voar no plano (flat). Talvez eles não saibam que, inconscientemente, o prazer extra vem da redução da ansiedade propiciada pela percepção de segurança oferecida pela alta disponibilidade de pousos na rota. O piloto sente que pode apenas ler o vento, decolar, colocar as costas para o vento e ir... ir... ir... e ir. E pode!

No livro Moderno Voo de Distância em Planadores, do piloto e instrutor alemão Fred Weinholtz - traduzido pelo brasileiro João A. Windmer, no capítulo 4. Navegação Meteorológica, item 4.2.2. O voo no rumo, Weinholtz compara o espaço aéreo com uma floresta e afirma: "É praticamente impossível atravessar uma floresta de olhos vendados sem às tantas ir de encontro a uma árvore." Ele usa esse argumento para sua sugestão de comportamento durante o voo no rumo.

O que ocorre é que, sem leitura adequada da condição e do relevo, seu desempenho estará atrelado às estatísticas e não à técnica e isso não o levará a ser um piloto regular. A leitura de relevo plano é mais complexa e cheia de pegadinhas. É preciso mapear mais detalhes e plotar uma leitura que inclua: diferenças de cores, formato de áreas, lagos, matinhas, riachos com e sem mata ciliar, erosões, estradas, linhas de transmissão e, uma parte bem complexa quando alto, inclinação dos terreno para identificar aclives e declives em relação ao vento.

Nesse cenário complexo, o que determina as regiões positivas em solo são as áreas com diversidade de composição (terra arada, pasto, matinha, lago, plantação...), contraste de cores (pasto verde, arado, plantação colhida, plantação seca...) e com pontos favoráveis a retenção de ar e umidade (clareiras, matas margeando pastos ou terras aradas...). Outro ponto a observar é que onde os ninhos forem produtivos (coletores eficazes) é preciso ler onde seria o ponto mais propício de saida ou desprendimento da térmica, que sempre será no final das áreas (em relação ao vento), sobre ou logo após pontos discrepantes, final dos aclives, logo após as barreiras dos terrenos baixos - que formam tipo rampas para as térmicas.


Sim, é cansativo. Sim, dá trabalho. Mas é um exercício legal e que, como recompensa, gera regularidade em seus voos - cada dia mais longos.


O exercício de voar tecnicamente deve ser feito aos poucos e com muita atenção. Busque voar sempre observando o céu e o relevo, estar sempre ciente da direção do vento na camada em que se está voando e no solo, observar as áreas com incidência de sol e as sombreadas e registrar a intensidade das térmicas a cada altura e momento do dia. No início, o que vale são as experimentações e as lições tiradas de cada situação.

Bons e longos vôos a todos.


CB

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